26 de junho de 2012

O controle nas escolas tem dias contados

Roda de contação de histórias, projeto Sementinha (CPCD) em Curvelo - MG. 15/05/2012


"Pois sonhos são testemunhos,
de que a alma se recusa
a se tornar um pássaro engaiolado"
Rubem Alves


Como alguns sabem, estou realizando com o Raul Perez um documentário sobre Educação Formal Alternativa, trata especialmente de educação democrática e dialoga com Pedagogia Espírita e "Educação tradicional". A ideia começou a germinar quando visitei a Escola da Ponte (http://oracaoemmovimento.blogspot.com.br/2011/01/impressoes-escola-da-ponte.html) em Janeiro de 2011, quando na ocasião encontrei o Raul (amigo de longa data) que estava de intercâmbio em Coimbra. Então ao longo de 2011 buscamos pessoas, leituras, filmes e obviamente estudar e realizar documentários. Em Janeiro começamos a rodar, período que se estende até o presente, com cerca de 90% do material gravado e filme começando a tomar forma na montagem. Foram mais de 20 entrevistas com muita gente bacana, Luiz Algarra, Tião Rocha, Helena Singer, Simone André (Instituto Ayrton Senna), Dora Incontri, Leonardo Brant, Alexandre Sayad, Tia Dag e muitos outros, além de boas conversas com José Pacheco e outros.


Além das entrevistas, registramos 3 escolas (iremos registrar mais uma) e 2 projetos de contra-turno escolar. É ai evidentemente que mora o trunfo e o mais incrível das vivências do projeto: as crianças. Antes que me perguntem, as escolas democráticas em geral não tem sala de aula (nem aula), horário definido, turmas homogêneas, algumas não tem nem mesmo turma. Em geral, as crianças pautam suas atividades, o que querem estudar, quando querem estudar, aonde querem estudar. Se precisam, vão ao computador, a biblioteca, aos tutores, aos murais de ajuda, enfim, são autonomas para definir suas ações. As crianças vão se desenvolvendo em ritmos diferentes, aprimorando potencialidades diferentes e criando muito, a criatividade é sempre muito estimulada. E ao contrário do que muitos pensam a primeira vista: A ausência do controle não gera baderna nem indisciplina, muito pelo contrário. As crianças vão naturalmente atrás de desenvolver seus gostos e vontades, criam uma relação afetiva positiva com o conhecimento e aprendem a ser educadas - fator fundamental para conviver em comunidade.




Mapa visual Educação formal alternativa
 Mapa que criamos no processo de pesquisa teórica -  Janeiro, 2012.






Ontem foi dia de gravar mais uma diária no Projeto Âncora (escola que vem sendo carinhosamente construída em Cotia - SP), fomos registrar uma roda de conversa com as crianças da Turma do Aprofundamento, turma que tem o maior grau de autonomia na escola, onde cada educando elege o que quer fazer, quando quer fazer, pedindo ou não orientação e auxílio de colegas e tutores. Me fascina como são educadas essas crianças, me fascina como são livres para pensar, como são criativas e vivas. Sim porque criança é pra ser viva e não morta como a maioria dos adultos que vão se alienando com o tempo. Criança livre é como pássaro fora da gaiola, sabe fazer voar nos ventos da imaginação, não se prendem no ninho dada a sede de autonomia, vão logo caminhando com as próprias pernas, com ritmo e passos próprios.


Um dos meninos muito nos encantou, Lohan (me perdoa se escrevi teu nome errado) de 9 anos, disse que vai escrever um roteiro de filme de terror, pra gravar comigo e com Raul, nos falava isso em meio a suas criações que misturavam personagens da mitologia grega. Ele não é especial, é criança normal, a diferença é que sem o controle rígido da "escola tradicional" (que temos desde o século XVII) ele caminha por onde quer, desenvolve muito mais suas potencialidades, colabora muito mais com seu meio de vivência, é mais vivo e voa mais, muito mais.


Um dos sintoma simples que me diz tudo isso é: Essas crianças gostam da escola que frequentam, já viu em alguma "esocola tradicional" criança gostar de frequentar? são raros....


Mas fico tranquilo, Pestalozzi (e muitos outros) já propuseram novas formas de fazer a escola há muito tempo, nós que ainda somos lentos para captar os exemplos. Já está tudo acontecendo, tudo se transformando no silêncio, quando Pacheco me disse que acompanhava mais de 50 projetos de escolas que realizam educação de uma forma diferente no Brasil, eu assustei, mas logo fui entendendo que as mudanças estão acontecendo no silêncio e tem muita gente fazendo diferente. Além é claro em outras frentes contemporâneas como o homeschooling que finalmente começa a chegar com efeito no Brasil.


Em tempo de greve nas federais, de míseros 5% do PIB para a educação, o ideal mesmo seria implodir o MEC (como sugeriu Pacheco no Congresso de Arte-educação em Sp, 2009) ou pelo menos as Secretarias que tanto aprsionam o sistema.


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Não posso deixar de citar e agradecer os queridos amigos que muito colaboram pra essa obra: Rafael Barreiro e Julia Rufino.

Em breve iremos lançar o projeto no Catarse, para conseguir através de Investimento / financiamento coletivo, a verba para editar e finalizar o filme. Pretendemos lançar ainda este ano, disponibilizando tudo grauitamente online, inclusive as entrevistas completas.

3 de maio de 2012

Surpresas e frustrações...




"Precisamos fazer um exercício difícil, mas extremamente necessário: o exercício do desprendimento de nossas expectativas" 
( Bento José / Pedro Camilo )


Surpresa e frustração de uma pessoa em relação a outra são derivadas da esperança de algo em relação aquelas pessoas. Só nos frustramos ou nos surpreendemos com alguém quando julgamos ela, criamos um resumo - concepção a seu respeito (quando resumimos todo aquele universo de um infinito histórico que é aquela pessoa - espírito a algumas posturas, fatos, títulos e atitudes) e nos deparamos com algo não esperado a essa concepção - resumo.
Portanto, não é interessante que eu me frustre ou me surpreenda com alguém, mais que isso, que eu crie concepções - resumo a seu respeito, pois, estarei tirando sua liberdade de ser e seu livre arbítrio de agir (além de me julgar superior a ela).






9 de fevereiro de 2012

Ninguém aguenta ser massa...

Tom Zé no Trama / Radiola - Arquivo

"A faixa esmagada vive bem, mas se sente brutalizada por que ninguém é gente.
Ninguém aguenta ser massa!"

Ontem a noite tive o prazer de participar de uma roda de conversa com Gustavo Taretto, o diretor Argentino de Medianeras (um dos filmes que considero dos melhores de 2011, muito recomendo). O filme trata do Amor em Buenos Aires na era virtual, onde dois jovens que moram na mesma rua não se encontram. Como muitas outras obras do invejável cinema Argentino, trata de coisas simples do cotidiano e dessa forma atinge profundamente as pessoas que estão sonhando aquele sonho coletivo na sala do cinema.

Respondendo a uma das últimas perguntas, que tratava do porque os Europeus invejam tanto a criatividade do cinema Latino Americano, ele disse mais ou mens o seguinte: "Na Europa tudo funciona, esse aburguesamento estraga a criatividade. Na América Latina nada funciona direito, você para conseguir viver, tem de ser muito criativo, pois aqui a vida é muito imprevisível. Já na Europa é tudo muito previsível".

Então matutando algumas reflexões, conclui que talvez, devido a intensa imprevisibilidade da vida aqui (desempregos, crises, pobreza, transporte, enchentes, ...) é que haja tanta esperança e fé. Pois há uma constante crença de que as coisas vão acontecer e que vão dar certo (são poucos os que realmente desacreditam, são tachados de pessimistas). E esse acreditar fortalece e move as pessoas, fazendo com que de modo criativo e com escassos recursos, se ajuntando, se ajudando (em especial nas comunidades mais pobres), elas fazem as coisas acontecer, fazem ser possível sua realização. Essa coisa de estar sempre em crise (e não se iludam com a economia, a miséria continua a existir nas esquinas Brasileiras) fortalece muito o fazer e a forma de fazer na América Latina. E mais, acho que a forma caótica de sobrevivermos (em função da imprevisibilidade) é que nos faz crescer, aprender e evoluir tanto (aos que percebem e se abrem pra isso obviamente, que se permitem), pois é sabido que por mais doloridos e temidos, são os momentos de crise que nos fazem refletir profundamente, sair do estado mecânico e alienante, se forçando a recriar caminhos, escolhas, planos e ações.

Por isso, tive um certo repúdio quando no final do ano passado o Guido Mantega afirmou que "serão necessários até 20 anos para que os brasileiros tenham um padrão de vida semelhante ao dos europeus", pois não quero um padrão de vida semelhante ao Europeu. Quero ao contrário, fortalecer cada vez mais um modo Latino de vida digna (e que o Brasil se vire de frente para a América Latina finalmente...), que não me deixe ser alienado porque tudo funciona e dá certo. Nossa vida ainda precisa de muita Tropicália. Tom Zé que o diga...

3 de fevereiro de 2012

"Felicidade é Só querer": Ela também tem penas, também quer voar.

"Felicidade é Só querer": Ela também tem penas, também quer voar. | Pastel Oleoso sobre Papel 300gr. texturizado | Fevereiro / 2012


Encontrou uma que tem penas na cabeça também, que também quer fazer voar a imaginação. Muito tempo depois da primeira, a inspiração chegou pra esta. E por ai, há um lugar...

8 de janeiro de 2012

Sopradas ao vento.

The answer my friend, is blowing in the wind. Fotografia digital. Lins - SP, Dez / 2011

A vida é feita de ciclos. Ciclos que as vezes completamos, as vezes não, e não digo aqui dos ciclos formais como escola, família e coisas assim, digo dos ciclos informais, mais emocionais e sensoriais que estão perdidos no cotidiano, nas coisas simples e complexas que se desenrolam em nosso nariz e as vezes não damos conta.
As pessoas são fundamentais para estruturarem esses ciclos. Elas entram em nossas vidas e se vão num estalar de dedos, mas nesse espaço de tempo que por nós estiveram, que por nós passaram, promovem proezas em nossas vidas, acho até mesmo que elas é que formam esses ciclos e não nossas escolhas. E claro, isso nunca está sob nosso controle (como quase tudo ou tudo na vida).
São amigos, chefes, namoradas, professores e por ai vai. Com um magnetismo e um carisma gigantesco sobre nós, aprimoram nossos gostos, nos ajudam a refazer nossas rotas, nossas escolhas e evidentemente, tocam profundamente nossos corações. Alguns duram anos, mas outros, promovem mudanças com apenas um encontro conosco. Quando ligamos os pontos depois de uma longa etapa, naquele momentos de pura reflexão, percebemos como e quando essas pessoas mexeram com a gente (claro que de modo totalmente impreciso e emocional) e acho que só ai nos damos conta do quanto essas pessoas são fundamentais pra sermos o que somos hoje. É só quando este ciclo já foi fechado e você já está entrando em um novo, em uma outra fase, que você percebe que só é o que é pelo que fizeram com e de você.
As novas portas, as novas cores e as novas pessoas que virão, que farão da tua vida isso ou aquilo, já estão por ai, sopradas ao vento e dentro de você, estão sendo gestadas pelos encontros que estão por vir.

6 de setembro de 2011

Vai desabarágua!

"Quebrando a casca" - Junho/2011

"Vai desabar água
Algodão vai,
Desabar água
Pra lavar o que tem que limpar
Pra lavar o que tem
Vai desabar água e é pro nosso bem"
[Gero Camilo e Alfredo Bello]

Mais uma volta na espiral? Só o tempo vai dizer.
O processo de expurgação vem no início a passos lentos, como ondas fracas e mirradas, que nunca alcançam os pés na beira da praia. Mas depois de ganhar força, depois de consumir as energias que lhe são próprias, que lhe estão guardadas, depois de revirar no seu íntimo todas as dores, angústias e fraquezas do ser, pede ao céu a chuva, o socorro e ai a água desaba... Lava tudo, limpa, desce numa torrente só, trazendo as impurezas, jogando tudo pro mar reciclar, vem a ressaca, derrubando tudo e jogando pra fora tudo aqui que não é mais seu, que já consumiu dentro o que tinha de consumir.
É pro nosso bem.
E ai, vem a calmaria, a paz, a renovação.
As vezes duram dias, meses, anos, vidas, milênios.
Mas sempre renova, pois nada além de Deus é passível de eternidade.

12 de agosto de 2011

E no meio do antagonismo, o caminho.

Jardim botânico, Curitiba - PR, Julho/2011



Sempre aquilo que aparenta ser antagônico, possui um caminho. Que fica bem no meio, as vezes mais pra um lado do que pro outro, mas a escolha não é absolutamente uma coisa ou outra. Esse caminho aliás é sempre um pouco de um e do outro, nossas escolhas não são só isso ou aquilo porque somos seres humanos, tristes e alegres, irritados e calmos, explosivos e harmonizados. Sempre "e", tá ai o teatro, o bom e velho Yin-Yang e tantas outras representações e simbologias pra nos mostrar isso.
São as forças complementares que estão em tudo e todos.
Nas trilhas da vida, frequentemente, muito mais do que diariamente (praticamente em todos os momentos) fazemos escolhas, só nos damos conta disso quando se tratam das mais complexas e consequentemente mais direcioandoras do nosso caminho aqui e agora. Sempre trazem as consequencias, que nos agradam ou desagradam - e ainda acho que isso está ligado a nossa harmonia com o cosmos e com o Universo, pois só nos frustramos quando não escolhemos o caminho que a vida nos pediu, se estivermos em harmonia portanto, faremos as escolhas que a vida nos pede e não o que racionalmente queremos - e daí as frustrações, os desânimos e em segundo momento, se formos corajosos e persistentes as mudanças e as satisfações.

Em harmonia ou não, estamos aqui pra aprender, nada é definitivo. O universo do efêmero, das constantes mudanças e dos infindáveis estados da alma nos permitem sempre mudanças e renovações, se você não está satisfeito, não tenha medo de mudar, o bem estar está sempre a bater na sua porta, e satisfeito ou não, viva tranquilamente. As coisas vão acontecendo e se desdobrando a todo instante, estar sempre disposto a relações e acontecimentos positivos em todos os sentidos e para todos os lados é a chave da tranquilidade.