"Precisamos fazer um exercício difícil, mas extremamente necessário: o exercício do desprendimento de nossas expectativas"
( Bento José / Pedro Camilo )
Surpresa e frustração de uma pessoa em relação a outra são derivadas da esperança de algo em relação aquelas pessoas. Só nos frustramos ou nos surpreendemos com alguém quando julgamos ela, criamos um resumo - concepção a seu respeito (quando resumimos todo aquele universo de um infinito histórico que é aquela pessoa - espírito a algumas posturas, fatos, títulos e atitudes) e nos deparamos com algo não esperado a essa concepção - resumo. Portanto, não é interessante que eu me frustre ou me surpreenda com alguém, mais que isso, que eu crie concepções - resumo a seu respeito, pois, estarei tirando sua liberdade de ser e seu livre arbítrio de agir (além de me julgar superior a ela).
"A faixa esmagada vive bem, mas se sente brutalizada por que ninguém é gente.
Ninguém aguenta ser massa!"
Ontem a noite tive o prazer de participar de uma roda de conversa com Gustavo Taretto, o diretor Argentino de Medianeras (um dos filmes que considero dos melhores de 2011, muito recomendo). O filme trata do Amor em Buenos Aires na era virtual, onde dois jovens que moram na mesma rua não se encontram. Como muitas outras obras do invejável cinema Argentino, trata de coisas simples do cotidiano e dessa forma atinge profundamente as pessoas que estão sonhando aquele sonho coletivo na sala do cinema.
Respondendo a uma das últimas perguntas, que tratava do porque os Europeus invejam tanto a criatividade do cinema Latino Americano, ele disse mais ou mens o seguinte: "Na Europa tudo funciona, esse aburguesamento estraga a criatividade. Na América Latina nada funciona direito, você para conseguir viver, tem de ser muito criativo, pois aqui a vida é muito imprevisível. Já na Europa é tudo muito previsível".
Então matutando algumas reflexões, conclui que talvez, devido a intensa imprevisibilidade da vida aqui (desempregos, crises, pobreza, transporte, enchentes, ...) é que haja tanta esperança e fé. Pois há uma constante crença de que as coisas vão acontecer e que vão dar certo (são poucos os que realmente desacreditam, são tachados de pessimistas). E esse acreditar fortalece e move as pessoas, fazendo com que de modo criativo e com escassos recursos, se ajuntando, se ajudando (em especial nas comunidades mais pobres), elas fazem as coisas acontecer, fazem ser possível sua realização. Essa coisa de estar sempre em crise (e não se iludam com a economia, a miséria continua a existir nas esquinas Brasileiras) fortalece muito o fazer e a forma de fazer na América Latina. E mais, acho que a forma caótica de sobrevivermos (em função da imprevisibilidade) é que nos faz crescer, aprender e evoluir tanto (aos que percebem e se abrem pra isso obviamente, que se permitem), pois é sabido que por mais doloridos e temidos, são os momentos de crise que nos fazem refletir profundamente, sair do estado mecânico e alienante, se forçando a recriar caminhos, escolhas, planos e ações.
Por isso, tive um certo repúdio quando no final do ano passado o Guido Mantega afirmou que "serão necessários até 20 anos para que os brasileiros tenham um padrão de vida semelhante ao dos europeus", pois não quero um padrão de vida semelhante ao Europeu. Quero ao contrário, fortalecer cada vez mais um modo Latino de vida digna (e que o Brasil se vire de frente para a América Latina finalmente...), que não me deixe ser alienado porque tudo funciona e dá certo. Nossa vida ainda precisa de muita Tropicália. Tom Zé que o diga...
Encontrou uma que tem penas na cabeça também, que também quer fazer voar a imaginação. Muito tempo depois da primeira, a inspiração chegou pra esta. E por ai, há um lugar...
A vida é feita de ciclos. Ciclos que as vezes completamos, as vezes não, e não digo aqui dos ciclos formais como escola, família e coisas assim, digo dos ciclos informais, mais emocionais e sensoriais que estão perdidos no cotidiano, nas coisas simples e complexas que se desenrolam em nosso nariz e as vezes não damos conta. As pessoas são fundamentais para estruturarem esses ciclos. Elas entram em nossas vidas e se vão num estalar de dedos, mas nesse espaço de tempo que por nós estiveram, que por nós passaram, promovem proezas em nossas vidas, acho até mesmo que elas é que formam esses ciclos e não nossas escolhas. E claro, isso nunca está sob nosso controle (como quase tudo ou tudo na vida).
São amigos, chefes, namoradas, professores e por ai vai. Com um magnetismo e um carisma gigantesco sobre nós, aprimoram nossos gostos, nos ajudam a refazer nossas rotas, nossas escolhas e evidentemente, tocam profundamente nossos corações. Alguns duram anos, mas outros, promovem mudanças com apenas um encontro conosco. Quando ligamos os pontos depois de uma longa etapa, naquele momentos de pura reflexão, percebemos como e quando essas pessoas mexeram com a gente (claro que de modo totalmente impreciso e emocional) e acho que só ai nos damos conta do quanto essas pessoas são fundamentais pra sermos o que somos hoje. É só quando este ciclo já foi fechado e você já está entrando em um novo, em uma outra fase, que você percebe que só é o que é pelo que fizeram com e de você.
As novas portas, as novas cores e as novas pessoas que virão, que farão da tua vida isso ou aquilo, já estão por ai, sopradas ao vento e dentro de você, estão sendo gestadas pelos encontros que estão por vir.
O processo de expurgação vem no início a passos lentos, como ondas fracas e mirradas, que nunca alcançam os pés na beira da praia. Mas depois de ganhar força, depois de consumir as energias que lhe são próprias, que lhe estão guardadas, depois de revirar no seu íntimo todas as dores, angústias e fraquezas do ser, pede ao céu a chuva, o socorro e ai a água desaba... Lava tudo, limpa, desce numa torrente só, trazendo as impurezas, jogando tudo pro mar reciclar, vem a ressaca, derrubando tudo e jogando pra fora tudo aqui que não é mais seu, que já consumiu dentro o que tinha de consumir.
É pro nosso bem.
E ai, vem a calmaria, a paz, a renovação.
As vezes duram dias, meses, anos, vidas, milênios.
Mas sempre renova, pois nada além de Deus é passível de eternidade.
Sempre aquilo que aparenta ser antagônico, possui um caminho. Que fica bem no meio, as vezes mais pra um lado do que pro outro, mas a escolha não é absolutamente uma coisa ou outra. Esse caminho aliás é sempre um pouco de um e do outro, nossas escolhas não são só isso ou aquilo porque somos seres humanos, tristes e alegres, irritados e calmos, explosivos e harmonizados. Sempre "e", tá ai o teatro, o bom e velho Yin-Yang e tantas outras representações e simbologias pra nos mostrar isso.
São as forças complementares que estão em tudo e todos.
Nas trilhas da vida, frequentemente, muito mais do que diariamente (praticamente em todos os momentos) fazemos escolhas, só nos damos conta disso quando se tratam das mais complexas e consequentemente mais direcioandoras do nosso caminho aqui e agora. Sempre trazem as consequencias, que nos agradam ou desagradam - e ainda acho que isso está ligado a nossa harmonia com o cosmos e com o Universo, pois só nos frustramos quando não escolhemos o caminho que a vida nos pediu, se estivermos em harmonia portanto, faremos as escolhas que a vida nos pede e não o que racionalmente queremos - e daí as frustrações, os desânimos e em segundo momento, se formos corajosos e persistentes as mudanças e as satisfações.
Em harmonia ou não, estamos aqui pra aprender, nada é definitivo. O universo do efêmero, das constantes mudanças e dos infindáveis estados da alma nos permitem sempre mudanças e renovações, se você não está satisfeito, não tenha medo de mudar, o bem estar está sempre a bater na sua porta, e satisfeito ou não, viva tranquilamente. As coisas vão acontecendo e se desdobrando a todo instante, estar sempre disposto a relações e acontecimentos positivos em todos os sentidos e para todos os lados é a chave da tranquilidade.